“Bad Luck Blues”

fevereiro 21, 2010

Mesmo a vista oferecendo um espetáculo embaçado (“parece que estou sempre debaixo d´água”, ele dizia) era impossível não chamar atenção o fato dos insignificante cabelos que, segundo os outros, estavam indo embora muito cedo. Ele achava, na verdade, que iam embora um pouco tarde, já que desde a infância era preparado por pais e avós sobre esse fadado destino capilar. Contava os anos e comparando com a expectativa tão alardeada pelos familiares, estava num bom pé. Se Pablo Picasso era careca, que se dane ele fosse também.

Olhou para o barbeiro e com um pouco de sorriso no canto da boca pediu máquina dois pra ver no que dava. O barbeiro Geraldo acatou sem pestanejar, como convocado para uma atitude patriota.

***
Quando pequeno, na companhia do pai, costumava ir a um barbeiro de cidade pequena. Se Zé Pretinho cortava bem, esse era assunto pra mãe. Gostava mesmo era vê-lo preparar a tesoura e se acomodar para a tarefa contratada. Não antes sem tomar um gole do copo de cerveja, colocado embaixo do espelho.

Foi ali, sentado na única cadeira do barbeiro de cidade pequena, que iniciou o conhecimento sobre as aventuras sexuais daqueles que ali iam mais para beber um copo com Zé Pretinho do que aparar os cabelos. Desde cedo percebeu que os homens inventavam mais do que faziam, e o sorriso espelhado do barbeiro denunciava o abuso da verdade.

Nunca entendeu porque deixou de ir à barbearia do Zé Pretinho. Provavelmente porque a mãe não estava mais satisfeita. Menos pelo corte do cabelo e mais pelo ambiente, provavelmente.

***
Enquanto a máquina dois ia percorrendo o seu caminho, comandado atentamente pelo barbeiro Geraldo, lembrou de sua grande satisfação ao longo dos anos ao ver os vários cabelos espalhados pelo chão. A cada vez que terminava de cortar o cabelo olhava ao redor do pé da cadeira e ficava contente com o resultado. Foi assim desde quando saiu da barbearia do Zé pretinho e foi levado por dezenas de salões pela mãe. Salões estes que não tinham conversas sobre feitos dos homens e a cerveja fora substituída por revistas de televisão.

E nada mais apropriado do que voltar a um barbeiro, cinco reais o corte com a máquina, para o grande dia. Com o serviço da máquina dois finalizado, finalmente ele cumpriu o destino tão esperado pelos familiares. Com os já parcos cabelos raspados, a calvície assumida.

Pode já contar para o avô e imagina a felicidade deste. Pensou em um dia passar lá no Zé Pretinho, tomar uma cerveja, conversar dos feitos não feitos e até cortar o que resta de cabelo, quem sabe…

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Uma resposta to ““Bad Luck Blues””

  1. artulobo said

    EEEEEEEEEEEEEEEEEEE, gostei bem. Me providencia um livro de 123 estorias dessas, que se chamará “123 estórias que ainda não contei”

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